A vendinha da Raia

por Gilberto Nable

E foi que o Zé do Joaquim do Totonho resolveu tocar a vendinha que lhe coubera por herança após a morte do pai. Entender de negócios, de comércio, pouco entendia. Mas, como dispor da mercearia, única no Bairro da Raia, que todos conheciam por venda do seu Joaquim, e que fora a razão da existência do pai?

Depois, solteiro, nos trinta anos, ainda enfiado no cafundó da Água Preta, onde raro aparecia viva alma… Filho único dos finados Zé e sinhá Zefa, esta morta quando ele beirava os cinco anos de idade, da qual nem mesmo direito se lembrava.

Não aguentara a ranhetice enviuvada e renitente do pai, sempre resmungando, arrastando os chinelos, da sala para o balcão da venda, do balcão para a sala. Preferira morar distante, naquela lonjura. Isto já fazia uns dez anos. A verdade é que também se cansara de cuidar das criações, da vida dura da roça, de foice e enxadão. Hora de vender o que amealhara e mudar para a cidade. Quem sabe, para uma vida melhor?

Vendeu tudo, de porteira fechada, como se diz. E para uma gente de fora, estranha, encafuada, que vivia em bando. Tinham o hábito de tomar um chá barrento, ruim de soltar as tripas.  Nos transes varavam a madrugada em danças e cantorias, vergando os joelhos, para lá e pra cá, pra cima e pra baixo.. Religião de um tal de santo Dolmo. Ou seria santo Dalme? Do padre Delmo?

Feita a peripécia, com o dinheiro no embornal, montado no cavalo baio, que não vendera por ser de estimação, o Zé aportou, horas depois, no ao redor da cidade de Juruoca. Mais precisamente no bairro da Raia, assim chamado, com sua dezena de casinhas humildes que, àquela hora, pelas chaminés de manilha, fumegava um princípio de almoço.

Apeando da montaria o Zé abriu a venda, fechada há seis meses, desde a morte do pai, quando os vizinhos consumiram todo o estoque de pinga e xarope de groselha. Nenhuma janela ou porta arrombada, graças a Deus. A casa ocupava os fundos da mercearia. Logo avistou o retrato dos pais, lembrança do casamento, a mãe com os lábios coloridos de um falso vermelho – Cristo guarde esta casa. Abrindo a janela da cozinha, o reboco sujo de borra de café, avistava-se a bica d´água.

Passou três dias colocando as coisas em ordem: varrendo, limpando armários, cortando lenha. Por fim, satisfeito, com tudo em seu devido lugar, apanhou uma tabuleta de anúncios. Ali escreveu a giz, com letra caprichada, em demorada caligrafia, para depois colocá-la em lugar bem visível, chamando atenção:

 

VENDE

                                       FRANGO-SE

 

E se erro havia, no bairro da Raia ninguém percebera. E essa gente atarefada, preocupada com as misérias e lidas da existência, iria se importar com o lugar correto de uma partícula, mera partícula, já de si tão desimportante? Quem achava graça era um ou outro viajante, em geral turista, a região sempre fora conhecida pelas belezas naturais, que passando por aquelas bandas dava de cara com o insólito cartaz. Um frango reflexivo, defunto solar, em plena cintilação de verbo!

E tudo de somenos. O Zé não tinha é mesmo jeito para comerciante, o que exige um pouco de manha, malícia, espírito ladino. E, no caso dos típicos comerciantes, aqueles vocacionados para o ramo, uma dose suficiente de esquiva ladroagem. Mas, de furto civilizado, cometido dentro de algumas regras implícitas e de comum acordo. E, portanto, perfeitamente desculpável.

Entretanto, ele não possuía nenhuma dessas indispensáveis virtudes, nem umas, nem outras, alma simples e solidária. A criançada do bairro passou a viver em festa, doces e balas fornecidas de graça. A roda dos amigos foi crescendo, crescendo, em torno dos garrafões e garrafões de pinga consumidos naquela vendinha. Tudo por conta do grande coração do Zé, onde coube e caberia, espaço de sobra, todos os bêbados e meninos da região. E as cadernetas, cada vez mais cheias de números, já não mereciam o acerto mensal, como nos tempos do seu Joaquim.

Simplesmente um inepto. Se alguém, por exemplo, quisesse comprar-lhe todas as latas de sardinha, ele prontamente…..não venderia.

– E se mais outra pessoa quiser? Como é que faço? Pega só duas….

Quando ressabiado, acabava não vendendo. Foi o que aconteceu com uns paulistas que lá apareceram nas férias. Chegaram alegres, tirando fotografias ( inclusive do anúncio do frango), de bonés coloridos e bermudas. Um casal e dois filhos. Pediram logo Ovomaltine para todo mundo.O Zé fechou a cara e disse que não tinha.

– Então, sanduíche de mortadela – Insistiram.

– Mortandela? Tem não.

– Mas a gente está vendo, pendurada ali….

– É, mas tá vendida.

Percebendo que o dono da venda não simpatizara com eles, os paulistas foram embora, decepcionados, sem entender direito o que acontecera.Em seguida o Zé comentou com o Quim-quim que entrara na venda para comprar rapadura:

– Ara, sô! Povo esquisito! De manhãzinha e já querendo tomar ovo com maltini! E pedindo pras crianças! Gente viciada! É o fim do mundo!

Mas o arremate e a certeza do desastre total chegou foi num certo domingo, poucos dias antes da vendinha fechar as portas  em irremediável falência. Estava o Zé atrás do balcão – a casa cheia de supostos fregueses -, fumando um cigarro de palha. Após umas duas horas, sério, pensativo, olhando as baforadas e os anéis de fumaça, enunciou por três vezes essa bobagem contábil, que soou como uma sentença, embora ele falasse solene feito um iluminado:

– Eu vendo abaixo do custo, e ainda tenho lucro!!

E aí empacou e embirrou de vez. De tal maneira e com tamanha convicção que não houve quem o fizesse mudar de ideia.

 

Abdução em Aiuruoca – o caso Inhô

por Gilberto Nable

Patacoada ou não, eles não saem dos jornais. Vira e mexe sempre aparece um E.T. ou um O.V.N.I., não importa em que canto desse imenso Brasil. A descrição dos extraterrestres varia, mas, aqueles muito pálidos, olhos arregalados, a boca em desgraciosa fenda, lembram as almas penadas. Creio que são mesmo verdadeiras larvas telepáticas, mistura esquisita de bichos-de-goiaba e plutônio. Aliás, da mais branca goiaba.

Morro de inveja dos meus conterrâneos. Quase todos em Aiuruoca já viram um disco voador. Eu que ainda não observei nenhum, sinto-me discriminado. Pertenço à minoria triste dos que não mereceram um contato com habitantes de outros planetas. E lembrem-se que, em Varginha, tão próxima da gente, um contato desse tipo mudou até o destino da cidade.

Consola-me pensar que um aiuruocano, o Inhô, jardineiro alegre e simples, já viajou num desses discos voadores. Quem quiser que acredite. As evidências são muitas. Acredito mesmo que os ETs e anjos têm uma preferência nítida por gente pura e pelas crianças. Devem se sentir mais à vontade com eles. Almas ingênuas, sem verdadeira culpa e nódoa.

Vamos lá. Aconteceu assim: estava o Inhô cochilando, lá fora, a cadeira inclinada no reboco da casa, quando foi acordado por uma luz intensa. Eram umas duas da manhã, e todos no Morro do Rosário, inclusive a família Furriel, dormiam profundamente. O Inhô sentiu um cheiro de bobinas queimadas. O engenho desceu levemente. Flutuou sobre o telhado, sem fazer nenhum ruído. Ele, coitado, não teve grito na garganta, quase desmaiou. Correu para dentro, mijando nas calças. Foi inútil, nem ia adiantar mesmo. Lá, na salinha, os extraterrestes já o esperavam, olhos verdes cintilando. Apontaram-lhe uma arma zumbidora. Tzzimmmm – um só disparo e o Inhô, atingido na testa, caiu duro no chão. Mas não o queriam morto não, queriam o pobre para experiências, parece que de trocas genéticas,  procriação em laboratório. O que ele me disse é que acordou numa sala circular, paredes de inox e muito iluminada, sentindo uma enorme dor de cabeça. O lugar inteiro parecia ter vida, cheio de estranhos ruídos. Os extraterrestres coaxavam, gorgolejando numa melequenta linguagem de rãs. Percebeu o coração na boca,  pois seria devorado, não teve dúvida. Mas, conta que lhe abaixaram as calças e lhe deram uma espécie de choque no pirulito. O bicho, contra a sua vontade, ficou duro um par de horas. Gemeu quando um daqueles seres começou a rebolar em cima dele. A pele fria e rugosa, o glu-glu melado, os lúbricos sacolejos. Foi ruim e foi bom. Depois disso nunca mais voltou a ser o mesmo, ainda sente nojo e saudade daquela coisa meio que parecida com sapo.

Por fim, apagaram as luzes e prensaram a cabeça dele contra uma janelinha. Zonzo, o nariz torto amassado no vidro, viu lá longe uma laranja azul, muito bonita, se aproximando velozmente. A nave ficou novamente suspensa sobre a casa dele, em completo silêncio. Desceram-no pelo buraco do telhado, num feixe de luz arroxeada e morna. O inhô pôde olhar para cima e reparar um pouco no mecanismo da espaçonave. Rodas dentro de rodas. Segundo a descrição dele: uma roda grande que girava dentro de outra e de mais outra roda, em direções diferentes. Novamente, no morro, madrugada calma,os vizinhos nada perceberam.

Protagonista dessa prodigiosa viagem, após tão escandaloso estupro intergaláctico, é que ele veio a apresentar as mediunidades que tem. Neca de grandes poderes: levitação, clarividência, mensagens para sua Santidade, o Papa. Talvez a razão pela qual a NASA, sempre interessada nesses casos, não tenha dado a devida importância. Mas o Inhô começou súbita participação em maravilhas e mágicas, ainda que miúdas: hipnotizar sapos e girinos, adivinhar a cor de infinitas linhas invisíveis, em todas as nuanças, inclusive quadriculadas e em bolinhas. E a mais perfeita delas: imitar, com perfeição e arte, o canto de qualquer pássaro, grande ou pequeno, vivo ou extinto. Foi assim que eu pude conhecê-lo, ter esse prazer, enquanto ele cuidava dos jardins na casa de minha mãe, em Aiuruoca. Paciente, tranquilo, feliz, arrancando ervas, afofando a terra, a podar os galhos, a germinar plantinhas. Sempre assobiando na bela linguagem dos passarinhos, só faltava voar. Ficamos amigos e acabou contando-me o fato incrível que acontecera com ele, aos poucos, depois de muita insistência e convencimento.

Ora, dizem que o universo tem quinze bilhões de anos e nasceu da explosão de um ponto minúsculo – o Big Bang. Dentro desse universo as distâncias são absurdas, medidas em anos-luz ( e a luz viaja a 300.000 quilômetros por segundo!). Bilhões de estrelas, nebulosas, planetas e galáxias. Nessa imensidão é sensato pensar na possibilidade, a existência de outras civilizações. Só não sabemos se seriam iguais à nossa ( para manter acesa a fé e esperança, espero firmemente que não).

Pouco importa, uma coisa é certa, não estamos sozinhos no universo. Depois de conhecer o Inhô isso ficou claro para mim. Virou uma luminosa certeza. Portanto, a prova caminha entre nós, humilde e despercebida, assobia e planta flores nos jardins. Deslumbrado com as manhãs e os ovos de colibris: meio criança, meio passarinho.

Definitivamente, não estamos, nem estaremos mais sós, o Inhô quem o diga.

Aiuruoca e a Praga do Padre

de Gilberto Furriel

Gerações de aiuruocanos já ouviram dizer que a sua cidade não evoluiu, ou não evoluí, por causa de uma praga rogada por um padre. Ouvem-se aqui e acolá relatos interessantíssimos, porém, é inegável dizer que estas narrativas de caráter maravilhoso possam ter realmente nascido de um fato histórico que se amplificou e, sob o efeito da evocação poética e da imaginação comprovadamente fértil do povo aiuruocano, sofridas variadíssimas mutações. Movido por todas as estórias que sempre ouvi sobre o dito padre e sua infalível praga, resolvi proceder a uma devassa histórica sobre o assunto, tarefa não fácil. Eis, ao menos, que consegui extrair:

Segundo informação oral que colhi do saudoso Antônio Alexandre dos Santos, Antônio Xândico, em tempos idos certo padre de Aiuruoca, cujo nome não se recordava, teria se envolvido em questões políticas acabando por sendo expulso da cidade. Esta expulsão se deu de forma agitada, sendo o vigário retirado à força da Casa Paroquial, que à época localizava-se na rua Dr. Antônio Guimaraes, colocado amarrado em cima de um cavalo e, sob forte arruaça, encaminhado para fora das cercanias da cidade, via estrada que se dirige ao “Morro dos Padres” de onde, voltando-se para Aiuruoca, proferiu uma “excomunhão particular” ou como diz o dito popular, “rogou praga” de que “Aiuruoca não mais iria para frente”. A título de esclarecimento, o apelido “Morro dos Padres” não foi cunhado pelo ocorrido com o padre, àquela localidade cujo nome primitivo era Matutu, passou a denominar-se “Morro dos Padres” após ter sido adquirida pelos irmãos sacerdotes, padre Urbano dos Reis Silva Resende e Antônio dos Reis Silva Resende, que ali mantinham sua residência e um colégio para rapazes. Após a sua expulsão, segundo o mesmo Antônio Alexandre dos Santos, o padre refugiou-se no Arraial de Bocaina de Minas onde, por piedade, foi pelo povo dali acolhido de forma amável.

Nada consegui apurar em Bocaina de Minas sobre assunto referente ao episódio de um padre expulso de Aiuruoca e que para ali tenha se dirigido, contudo, algo chamou minha atenção: em 1943 Bocaina passou a denominar-se Arimateia, até que, dez anos mais tarde, pela Lei nº 1 039 de 12-XII-1953, Arimateia foi elevada à categoria de cidade, com a criação do município, seu nome voltou a ser Bocaina de Minas. Lembrei-me de imediato que o poeta Dantas Motta noticia em seu poema “Visão da Grande Cidade” a troca de nome de Bocaina para Arimateia. Segue trecho:

Visão da Grande Cidade

“Retirados que fomos pelo beco de Siá Petruna
Porta do oriente que dá para o Morro dos Padres…”
“…Dobrado o espigão mestre que de Armateia deriva
Região do “Gentio” que do “Soberbo” se não aparta,
Ainda pude ver, chorando, o rosto triste de Sião….”

Há de se concordar que o caso do padre, certamente um escândalo à época, poderia ter criado na memória coletiva dos bocainenses alguma espécie de marca e influenciado a troca do nome daquela localidade, talvez uma espécie de homenagem piedosa do povo, assim, ocorreu-me à hipótese de que o nome Arimateia poderia ter alguma relação histórica com a expulsão do sacerdote de Aiuruoca. Partindo deste pressuposto, iniciei um levantamento nominal de todos os sacerdotes que passaram pela paróquia de Aiuruoca no intuito de encontrar algum Arimateia e, para minha surpresa, encontro o Padre José de Arimatheia Freire de Andrade, também conhecido por Cônego Arimateia. Seguindo o lastro de que o suposto padre apontado pelo Antônio Alexandre dos Santos teve sua expulsão feita por questões politicas, resolvi aprofundar a pesquisa sobre este sacerdote e saber se possuía potencialidades suficientes para ser a personagem que tanto povoa a imaginação de nossa terra. Segue:

Padre José de Arimateia Freire de Andrade

Natural de Aiuruoca, ordenou-se Sacerdote em 03/011864 pelas mãos D. Antônio Ferreira Viçoso (1787-1875), Bispo de Mariana/MG – Era filho de Mariana Freire de Andrade e de José de Almeida Bastos. Neto materno de Jacinta Ferreira Felgas, de Aiuruoca, e Manoel Freire de Andrade natural da Freguesia de Quintela da Lapa Bispado de Lamego – Bisneto Materno de João Ferreira Felgas e Ana Nunes de Jesus (ou de Siqueira), natural de Aiuruoca, e do Dr. Antônio Carneiro Duarte e Luzia Freire de Andrade Alvarenga. Em documento datado de 22 de Novembro de 1866 aparece como vigário da Freguesia do Turvo, hoje Andrelândia, residia em uma casa pertencente ao Major Ulisses Fabiano Alves. De acordo com o Almanaque Sul Mineiro de 1874, encontrava-se como vigário da Freguesia do Senhor Bom Jesus do Livramento, hoje cidade de Liberdade/MG. Naquela cidade, em tempos atuais, ainda existe uma rua que leva o seu nome: Rua Cônego Arimateia.

Além de Sacerdote, enveredou-se pela vida politica pertencendo ao Partido Conservador, tanto que, em 1886, destacava-se como chefe do mesmo partido na Freguesia do Livramento (Liberdade/MG). Em 25/07/1886, toma partido de uma manifestação de solidariedade enviada pelo povo daquela localidade ao Dr. Luiz do Rego Cavalcante de Albuquerque, Promotor de Justiça da Comarca de Aiuruoca. Devido à chefia política que exercia, sua vida pública pareceu-nos ter sido um tanto quanto conturbada, haja vista os ataques sofridos pelo opositor Partido Liberal, em matéria publicada no periódico “Liberal Mineiro”, Ouro Preto, em data 07 de outubro de 1885, como poderemos ver:

“Na Freguesia do Livramento, o Chefe Político, um reverendo, o padre José de Arimathea, emprega, segundo corre, a sua influencia e o seu prestígio para que seja abafado o processo de roubo dado na casa de um negociante e no qual está envolvido, conforme se depreende do inquérito policial, o professor público daquela parochia, José Possidonio da Silva. Queremos ver que providencias tomão a cerca deste facto criminoso as autoridades superiores da província.”

O ataque ao padre, ao que tudo indica, gerou desconforto por parte dos membros do Partido Conservador que tratou logo de sair em defesa de seu correligionário, conforme se explicita na edição 377 de 10/08/1886 do periódico “A Província de Minas, Órgão do Partido Conversador”, página 2:

“Município de Ayuruoca – Sahe hoje publicado em outra parte desta folha um honroso manifesto dirigido por muitos e distinctos cidadãos da Ayuruoca ao nosso presado e respeitável amigo o Revmo. Sr. Conego José de Arimatheia Freire de Andrade, digno chefe conservador da Freguesia do Livramento. Esta publicação é um digno e significativo protesto contra vilíssimas injurias anonimamente publicadas na imprensa contra o nosso distincto amigo co-religionario Revmo. Sr. Conego José de Arimatheia Freire de Andrade, que merece e sempre mereceu a maior estima e consideração de quantos conhece-lhe o nobre caráter. Cordialmente nos associamos ao pensamento do manifesto referido, que é um tributo de justiça, e merecida homenagem a um cidadão respeitável, cheio de serviços à causa pública e de títulos à Sympathia de todos os homens bons”.

Segue de inteiro teor, o aludido manifesto:

Município de Ayuruoca
Manifesto

“Illmo. Revdm. Sr. – Os abaixo assignados eleitores e moradores na cidade da Ayuruoca ao lerem o Liberal Mineiro numero de do corrente em que um miserável caluniador tentou manchar a reputação de V. Revdm. servindo-se de termos menos convenientes, porém, próprios de caráter baixo de quem é avezado a macular a reputação alheia em pasquins publicados na imprensa assalariada, não pode deixar de, em homenagem a amizade, sympathia, consideração e respeito que votão a V. Revdm. de protestarem contra contra este acto de vandalismo praticado por algum ou alguns dos sucessores do infeliz Apulcho de Castro. Revdm. Sr. a barba asquerosa desses entes, em cujas fazes se ve desenhada a infâmia o a calumnia, nem de leve pode denegrir, (já não dizemos suas vestes sacerdotaes) mas as solas de seus sapatos. O caracter altivo e nobre, a honradez, honestidade e virtudes, que sobejão em V. Revdm. são padrões de gloria para o Partido Conservador que ufana-se em contar-lhe no numero dos homens distinctos deste município. Assim pois, Revdm. Sr., os abaixo assinados, conhecendo os sentimentos nobres e humanitários que se aninhão em seu coração, os actos generosos e prudentes praticados por V. Revdm. cujo nome é venerado e conhecido pelos homens eminentes do paiz, pedem a V. Revdm. que despreze essa calumnia, que jámais poderá marcar sua vida publica e particular, e avante prossiga na senda gloriosa que até hoje tem trilhado. – Somos com estima e consideração de V. Revdm. amigos e patrícios”.

Antônio Esaú dos Santos – eleitor
Francisco Martins de Barros – eleitor
João Esaú dos Santos – eleitor
João Martins de Barros – ereador e eleitor
Azarias Esaú dos Santos – eleitor
Fortunato Francisco Tavares – eleitor
Antônio Esaú dos Santos Filho – eleitor
José Martiniano de Senne – vereador e eleitor
Manuel Oscar Junqueira – eleitor
Bento Fernandes Maciel – eleitor
Prudenciano José Nogueira – eleitor
José Frauzino Junqueira Netto – eleitor
Tristão Antônio da Silveira – eleitor
Bacharel, Luiz do Rego Cavalcante de Albuquerque – eleitor
Taminio Assis Junqueira – eleitor
José Alexandrino de Assis Toledo – eleitor
Antônio Bazilio de Assis – eleitor
Joaquim Alexandrino de Andrade – eleitor
João Braulio Fortes Junqueira – eleitor
Manoel Esaú dos Santos – eleitor
Manoel de Sá Fortes Junqueira – eleitor
Ignacio Mendes de Siqueira – eleitor
Antônio Sebastião Ferreira de Araujo – advogado e eleitor
Alexandre Pinto de Souza – 1º suplente de delegado de policia
Antônio Carlos de Faria – eleitor e agente do correio
Antônio Joaquim Alves
José Francisco de Paiva – fiscal
Antônio Jesuino dos Santos
João Oswald Diniz Junqueira – delegado de policia e eleitor
João Porcino da Silva – Delegado de Policia em exercício e eleitor
Juvenal Pereira de Magalhães – Procurador da Comarca e eleitor
Antônio José de Barros – eleitor
José Rufino dos Santos – eleitor
Antônio Maximiano de Paiva – eleitor
Bernardino José de Carvalho – eleitor
Ignacio Bernardino dos Reis – eleitor

Ayuruoca, 26 de julho de 1886.

Os ataques ao Padre José de Arimateia junto à imprensa o leva a escrever, em 05 de fevereiro de 1888, no jornal “O Baependiano”, um único artigo destinado a sua própria defesa. Neste artigo, explicitam-se as questões e desafetos políticos que possuía o Sacerdote, vejamos:

Livramento d’Ayuruoca

Ilmo. Sr. redactor do Baependiano. Li no Jornal O Combate, que se publica nessa cidade, um artigo que faz alusão a minha humilde pessoa, onde me acusa este esse jornal, por falsa informação de gratuitos desaffectos políticos meus de Ayuruoca, que (mao grado meu) não se esqueceram de mim, de não ter eu dado publicidade à pastoral do Exmo. Diocesano sobre o elemento servil; de tê-la guardado em meu poder sem lhe dar publicidade, para acautelar interesses políticos e não desgostar amigos.
Admira a exigência que se me faz, quando pelos jornais se vê que muitos parochos só deram publicidade à pastoral nos dias de natal e anno, talvez para aproveitarem a maior reunião de parochianos.

Enfim, Sr. redactor, para dissipar atroz quam desbragada calunias do seu honesto e conceituado jornal, pedindo-lhe que insira nelle estas linhas:
Por mais de uma vez tenho sido atacado pela imprensa, já d’envoltta com os meus ilustrados e honrados amigos Dr. Luís do Rego C. d’ Ayuruoca, ex-promotor publico d’Ayuruoca, já com o Major Francisco Ramiro, com o Advogado Antônio Sebastião e outros distictos e prestimosos amigos do Partido Conservador deste munícipio, e agora finalmente em unidade!

É falso Sr. redactor, o que afirma aquella folha, porquanto tendo a aludida pastoral, e sido expedida pelo Correio de Marianna a 26 de novembro (como se evidencia no carimbo), só aqui chegou em os primeiros de dezembro: não a publiquei a 8 deste por encomodo de saúde, mas fiz na estação da Missa Conventual do domingo 11 de do referido mês, e disto dão testemunho todos os meus parochianos, que, cumprindo o dever religioso, assistirão a missa d’quelle dia.

Como pois, me acusa o redactor do Combate, em seu jornal de nº23 de 25 de dezembro, tão acremente? Eram passados 1 mês da eleição Senatoral, e meio mês da publicação! Esta é de força…St. S.S. quer saber se cumpri meu dever, peça ao Exmo. S. Secretario do Bispado, da comunicação que, para os devidos fins, lhe fiz no dia que publiquei a pastoral: (11 de dezembro b), e caso não baste, digne-se a vir a esta freguesia acompanhado de seus informantes d’Ayuruoca, que muito lhe merecem, e inquira aos meus parochianos – gregos e troianos – sobre a verdade ou inverdade do exposto.
S.S. foi ainda infeliz quando afirmou que eu deixava de cumprir aquele dever por ser candidato à Assemblea Provincial! Não fui candidato não senhor, fui convidado por legitima influencias do meu partido e com apoio certo a me dar triumpho, adversários leaes espontaneamente me asseguravão sufrágios, mas me declinei dessa honra politica, não aceitei.

Mas quando aceitasse e fosse candidato, estou certo de que os amigos que me apoiavão, erão e são incapazes de me pedir um sacrifício de consciência ou de cumprimento do dever.

Aconselha-me o redactor do Combate o cumprimento de deveres, e eu aconselho S.S. e a seus informantes d’Ayuruoca, meu gratuitos desafectos, mais calma, seriedade e reflexão nos seus escriptos e comunicados.

Se sou politico, exerço um direito que me assiste pela Constituição do império, e no exercício dele, ufano-me de dizer, nunca lancei mãos de meios ilícitos para chegar a qualquer fim, e jamais faltei ao respeito e consideração ao adversário, por mais energúmeno que me pareça ser.

Alimento a convcção de haver desempenhado, de conformidade com minhas fracas forças, os deveres de meu árduo ministério, como parocho que sou desta Freguesia há 21 anos, e tão convicto estou, que conto, caso seja mister, se levantarão uníssonos todos os meus parochianos, sem distincção de cor politica, para protestarem contra as calumnias e inverdades de que tenho sido e vou sendo victima.

Mais uma vez assevero ao Sr. redctor do Combate e alguns de meus desleaes e gratuitos desaffectos da Ayuruoca, que de mim tanto se lembram, que tenho cumprido e sei cumprir os meus deveres, e tanto é assim que me vejo, Deus louvado, cercado de estima, respeito, e consideração de todos os meus parochianos; e essa estima, esse respeito, essa consideração ( que para mim constitui o meu maior padrão de gloria) que desafia o ódio, a calumnia, a mentira, o desespero, enfim, com que meus gratuitos desaffectos se atirão sobre mim, com o fim baldado de me desprestigiarem. E conseguirão??

Demorada vai esta resposta, Sr. redactor, devido a não ser eu assignante do Combate que só hoje li por favor de um dedicado da Ayuruoca, a quem agradeço o aviso.
Aos meus amigos e ao publico, previno que não volto à imprensa, embora de novo attacado, para responder a calumnias ou inventos levianos como este; se aparecem, responderei com desprezo que merecem.

Responderei, sim, a artigos assignados por pessoas que mereça as honras de uma resposta. Meu passado é meu presente, e este será o meu futuro.
Livramento, 15 de janeiro de 1888.

Conego Vigário José de Arimathea Freire de Andrade.

Findo o império, elege-se Vereador da Câmara Municipal de Aiuruoca para a Legislatura 1892 a 1894 e, após este fato, não consegui obter mais nenhuma noticia sobre ele.

Quando achava que já poderia dar por finda as conjecturas sobre a praga do padre, lembrei-me de um caso envolvendo outro sacerdote de Aiuruoca, o Padre Antônio Lopes Duarte. Vejamos:

Padre Antônio Lopes Duarte

Desconhecemos suas origens, sabemos somente que foi o 35º pároco de Aiuruoca, onde paroquiou de 1912 a 1914 e que sua passagem por Aiuruoca poderia, em determinadas partes, ter sido inspirada na novela de Eça de Queiróz “O Crime do Padre Amaro”. Seduzindo uma jovem da família Ribeiro de Andrade e por medo do desfecho de seu ato, deixou às pressas a localidade. O Dr. Julinho conhecia com detalhes esta história, tanto que, em uma de nossas conversas, me disse que o dito padre, antes da fuga, legou alguns bens que possuía ao seu avô, o Cel. Júlio Máximo de Arantes, dentre eles uma flauta. Esta flauta e o caso amoroso do padre foi objeto de um belíssimo artigo do Dr. Julinho no Jornal Correio do Papagaio. Lembro-me muito desta flauta, manuseei-a por diversas vezes, ficava fixada em uma das paredes da casa junto a um pequeno recorte de jornal, ainda existente, que registrava a lembrança do acontecimento que abalou as estruturas religiosas da velha Aiuruoca, isso em 1914.

Tendo por base esse pequeno recorte de jornal, comecei a pesquisar sobre o caso, encontrando na página 6 do jornal “O Paíz” da cidade do Rio de Janeiro, datado 20 de julho de 1914, a seguinte noticia:

Um padre em apuros…
Denuncia Grave

“Escandalizou profundamente a todos que se achavam, hontem, na 1ª delegacia auxiliar, a denuncia grave, levada contra o padre José Duarte, que se achava hospedado no hotel Cruzeiro do Sul, à rua Senador Euzebio. A denuncia é a seguinte: O padre José Duarte, sendo nomeado vigário de Ayuruoca, fez as melhores relações com a família do Dr. João Ribeiro de Andrade, conseguindo em pouco tempo uma confiança ilimitada na casa. Pouco depois, o vigário conseguiu seduzir uma jovem daquela família. Prevendo, porém, o escândalo e não vendo meios de reparar o mal, o padre Duarte fugiu de Ayuruoca para esta capital, pretendendo sem seguida zarpar para a Europa. Mas, com o desaparecimento súbito do padre vieram às suspeitas, e o pai da moça apurou toda verdade e telegrafou a um amigo, afim de que o seductor de sua filha fosse prezo. O Dr. Raul de Magalhaes, recebendo a queixa, mandou capturar o padre”.

E mais no periódico “O Pharol”, Juiz de Fora, datado de 28 de junho de 1914:

Telegrammas do Rio

“A policia daqui prendeu o Padre Duarte Lopes, vigário de Ayuruoca (Minas) accusado de haver abusado de uma filha de importante família dali”.

Complemento da referida noticia conforme o recorte de jornal existente no Museu Municipal Dr. Júlio Arantes Sanderson de Queiroz:

Um reverendo em apuros.

“Ontem noticiamos os apuros em que está envolvido o padre Antônio Lopes Duarte, vigário da freguesia de Ayuruoca, no Estado de Minas gerais, cuja prisão foi effectuada na Barra do Pirahy, à requisição da policia mineira.
O padre Antônio Duarte é accusado de ter seduzido a filha de um advogado residente na cidade de Ayuruoca.

Em favor do reverendo, que se achava preso na Casa de Detenção de Nietheroy, foi impetrada uma ordem de habeas-Corpus, sob o fundamento de que a prisão foi effectuada por meio de um despacho telegráfico e não de acordo com a lei de extradicção inter-estadual.

O habeas-corpus foi concedido e hontem mesmo o reverendo foi posto em liberdade.”

Segundo consta, pelos dessabores que passou o referido padre, ele também usou de uma “excomunhão particular” ou como diz o dito popular, “rogou praga” de que “a família do pai da moça não mais iria para frente”, ou seja, acabaria a sua descendência e, coincidência ou não, foi o que ocorreu. Há quem diga que o desgosto do padre e sua praga fora extensiva a toda cidade de Aiuruoca.

Temos, pelo exposto, dois fortes candidatos à autoria da praga. Ambos movidos por suas paixões: uma política e outra amorosa. René Descartes já dizia que “As paixões são todas boas por natureza e nós apenas temos de evitar o seu mau uso e os seus excessos”. Estes dois sacerdotes teriam abusado ou teriam sido vítimas de suas paixões? Se por ventura seguirmos as pistas deixadas por Antônio Alexandre dos Santos, poderíamos afirmar tratar-se do autor da praga o Padre José de Arimateia Freire de Andrade? Contudo, tornar-se-ia também merecedor da autoria o coração partido do padre Antônio Lopes Duarte?

Caro leitor, qual dois seriam?

Fontes consultadas:
 Bocaina de Minas Gerais – MG Histórico As – Biblioteca do IBGE – Lei nº 1 039 de 12-XII-1953.
 Elegias do País das Gerais – Dantas Motta.
 Lista de Padres Sacerdotes da Paroquia de Nossa Senhora da Conceição de Aiuruoca, Monsenhor José do Patrocínio Lefort.
 Lista de Localidades de Votantes da Paróquia de Aiuruoca, 1877, lugar “Matutu” – Arquivo a Casa da Cultura de Aiuruoca.
 Genealogia da Família Ferreira Felgas – Anderson Maciel Reinaldi
 Iphan de São João Del Rei: Inventariado do Major Joaquim Fabiano Alves – Aiuruoca ano de 1877 – Bens de Raiz: “Uma morada de casas cobertas de telha na freguesia do Livramento com cozinha e quintal, onde mora o Cônego José de Freire de Andrade 800$000” – Trecho do Testamento: (…) escrito a meu rogo pelo meu Vigário Padre José Arimathéia Freire de Andrade (…) por não poder escrever (…) Fazenda das Cabeceiras do Turvo da Freguesia do Livramento, 22 de Novembro de 1866 – Joaquim Fabiano Alves.
 Periódico “Liberal Mineiro” Ouro Preto, 07 de outubro de 1885. Hemeroteca Digital Brasileira.
 Periódico “A Província de Minas, Órgão do Partido Conversador” de 10/08/1886, página 2. Hemeroteca Digital Brasileira.
 Memorial da Câmara Municipal de Aiuruoca – Legislaturas.
 Jornal “O Paiz”, da cidade do Rio de Janeiro, datado 20 de julho de 1914. Hemeroteca Digital Brasileira.
 Periódico “O Pharol”, Juiz de Fora, de 28 de junho de 1914. Hemeroteca Digital Brasileira.
 Recorte de jornal sobre o Padre Antônio Lopes Duarte – Museu Municipal Dr. Júlio Arantes Sanderson de Queiroz – Aiuruoca.
 Almanaque Sul Mineiro de 1874, página 426. Hemeroteca Digital Brasileira.
 Os Partidos Liberal e Conservador:

Os Conservadores pregavam um sistema político onde as autoridades governamentais deviam agir imparcialmente garantindo a liberdade de todos os cidadãos. Defendiam o governo centralizado (trono) e desejavam realizações de progresso. Este partido tornou-se conhecido, na década de 1840, pela denominação de “Saquarema”, nome do município fluminense onde se localizava as propriedades agrícolas de um dos seus principais líderes, José Rodrigues Torres, Visconde de Itaboraí.

Os Liberais advogavam a liberação das províncias, com um governo parlamentar mais aprimorado, com a abdicação do poder moderador, do vitaliciamente do senado e desejavam ainda a abolição da escravatura e a eleição bienal dos deputados. Os Liberais foram chamados “Luzias”, nome derivado da Vila Santa Luzia do rio das Velhas, em Minas Gerais, onde se travou a batalha em que a revolta Liberal mineira de 1842 foi sufocada pelo General Luís Aves de Lima e Silva, à época Barão de Caxias.
Os estudiosos que tratam do tema mencionam uma preponderância de membros com interesses agrários no Partido Conservador, grupos economicamente poderosos ligados à lavoura e a pecuária, plantadores de cana-de-açúcar, cafeicultores, criadores de gado.
O Partido Liberal, mesmo havendo nele grandes proprietários de terras, recebia o apoio da maioria dos profissionais urbanos e comerciantes. Era a burguesia urbana (comerciantes e bacharéis).

Os dois partidos não se respeitavam e nem se impunham a opinião pública, cada um possuía seu órgão de imprensa do qual utilizava para atacar o adversário.
Os mesmos chegaram ao apogeu de sua fama, durante o 2° reinado, com o Imperador mantendo-se neutro entre os dois, embora sempre vigilante, aconselhando a conciliação.